Tenho reparado como tudo tem nome. Eu sei que provavelmente todo mundo já sabe disso, só tenho achado graça de como precisamos de palavras para fazer as coisas adquirirem significados. Como se nada do que existe pudesse ser apreendido se não tivermos a capacidade de classificar, designar, dizer a que lugar pertence. Quando não sabemos exatamente que expressão usar, falamos de algo próximo, que se pareça. É preciso descrever e categorizar para atribuir sentido.
Não acho que não sejamos capazes de fazer de outra forma, mas creio que pensando em como a nossa razão é construída, é, realmente não podemos; não conseguimos. Enxergamos o mundo a partir de etiquetas que pregamos em tudo quanto é objeto que vemos. Quando não conhecemos algo, ficamos sempre indo atrás do nome, e entendemos que só depois que o descobrimos é que conseguimos construir a ideia em torno daquilo. Entendo que as pessoas precisem de nomes, palavras para se comunicar, contudo, mesmo quando falamos com nós mesmos, refletimos a partir da categoria.
Vez por outra, as pessoas dão nomes diferentes para falar da mesma coisa. A idéia pode ser compreendida, em maior ou menor grau, porém isto não nos impede de colocar o novo signo em nosso cérebro e, eventualmente, apropriar-se dele para o nosso vocabulário e dia-a-dia. Em um lugar desses, aqueles que não tem nome são mesmo pessoas perdidas, sem rumo.
Sempre penso nos tratamentos que as pessoas dispensam a mim, de acordo com o que elas sabem a respeito da minha vida (algumas pessoas). É curioso ver como tudo muda: o jeito, o discurso, a forma de me olhar ou mesmo de se aproximar. O momento em que o ‘clique’ acontece e elas percebem que estão diante de um transexual…sempre percebo quando isso acontece. O olhar, como se, a partir daquele momento, tudo fizesse sentido. As reações são variadas, mas o olhar sempre foi o mesmo: uma mistura de surpresa com espanto, ao mesmo tempo enrolado em um monte de pontos de interrogação que parecem flutuar sobre suas cabeças. Aquele sorrisinho de canto que a gente sempre dá quando sabe algum segredo muito precioso de alguém, mas ainda não decidiu como vai usar a informação. É, acontece toda vez!

Depois do olhar e sorriso que sempre me embaraçam, começa o momento das sinapses descontroladas: ficam buscando na memória, em leituras recentes, em outros amigos, tudo que sabem (ou imaginam saber) sobre transexualidade. A maioria, não sabe muita coisa, e isso já é lucro porque quase ninguém sabe mesmo é nada. Aí, começam as perguntas: como é, como faz, da onde vem e a fatídica “qual seu nome?”. Sempre respondo dizendo que é Marcelo Caetano. Elas lançam-me um olhar torto, afinal, não é disso que estão falando. É, eu sei que não era. De qualquer forma, é este o meu nome, ainda que não agrade a sua curiosidade.
Essa necessidade de me designar a partir do meu nome civil (que não é o nome que me define, contempla ou sequer me explica; não é nada além do nome que me constrange) me soa muito engraçada. Já foi um grande incômodo; hoje, tento fazer com que seja só uma graça. O maior problema é que, tenho certeza, as pessoas começariam a usar o nome civil, assim, aleatória e cotidianamente. Não sei se de maldade, algumas sim, outras não, ou se é só o inconsciente que é muito sacana, porém o constrangimento seria o mesmo, independente da intencionalidade do falante (não, isso não é verdade! só vou deixar esse comentário aqui para fins didáticos!). Acho muito sintomático que, após a revelação e/ou confirmação sobre a minha transexualidade, as pessoas passem a me chamar de Marcelo, mas a utilizar os pronomes pessoais, ou outras eventuais palavras, no feminino. Sério! Se qualquer pessoa disser pra você que se chama Marcelo, ninguém nunca falará nada no feminino. Qual a diferença, então?
Ainda não consegui explicar, mas sinto como se fosse quase uma força gravitacional, puxando tudo para o lado da “normalidade”, afinal, ser transexual ‘não é normal’, e precisamos ter algum controle sobre os outros, né?! Não sei em que medida é comum confundir-se em relação a isso; amigos meus que trocam as palavras quando falam comigo: nunca os vi fazendo isso com outros amigos homens nossos. Estranho, não? Fico na dúvida: faz parte das durezas de ser trans ou parte das limitações morais dos seres humanos?
