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Eu não quero mais viver neste mundo

16 jan

Eu passei o domingo inteiro dormindo (sim, eu tenho a habilidade de dormir seguidamente por 24h, ou mais). Quando acordo, um pouco antes de ir para a aula, abro rapidamente o facebook e deparo-me com vários comentários sobre um estupro no BBB. Esfreguei meus olhos e arrumei os óculos; era óbvio que eu estava lendo errado, aquilo não fazia o menor sentido. Detive-me às notícias com maior cuidado: havia links para vídeos, posts em blogs variados. Parecia que era mesmo verdade; continuava sem fazer sentido algum, mas era verdade.

Uma das gurias ficou bêbada na festa e os vídeos mostravam ela desacordada enquanto um homem fazia movimentos que simulavam uma relação sexual. Digo simulavam porque eles estavam cobertos e não era possível ver claramente se ele a penetrava. Quando ela mexeu um braço, ele parou. Parecia, também, olhar meio desconfiado para os lados, como se estivesse atento às movimentações exteriores. A menina estava desacordada, era claro. Não era possível ver se o rapaz a penetrava, mas percebe-se que seus movimentos eram todos com intenções sexuais.

Se ele a penetrou, não importa tanto assim. Creio que seja simbolicamente importante para aquela que foi violada. Mas, para definir se houve um crime ou não, se foi realmente um estupro ou não, não faz grandes diferenças. Ela foi abusada da mesma forma, foi violentada enquanto estava desacordada, inconsciente. E isto foi televisionado, testemunhado por milhares de pessoas. Ninguém vai fazer nada, efetivamente, sobre o ocorrido? Já correm as notícias sobre o Boninho defendendo-se. Ele não quer colocar seu programa em risco. A Globo é uma emissora grande, não pode sair prejudicada. Mas compactuar com este tipo de crime pode, né?!

Monique diz não se lembrar. Não se lembrar é muito diferente de não ter sido estuprada. Não foi isso que ela disse. Inclusive, as coisas que ela falou me fazem realmente acreditar que ela foi violentada. Não se lembra de nada: de ter estado na cama com o rapaz, de ter sido acariciada, do corpo dele sobre o dela. Estava bêbada e o álcool nos faz mesmo esquecer das coisas; estava bêbada e inconsciente, tornou-se um alvo fácil para aquele que, na sua posição de homem, considera-se superior, aquele que acha que tem direito sobre o corpo das outras, especialmente quando esta outra bebe, quando esta outra “não se dá ao respeito”.

Não assito ao programa, não posso dizer o quanto ela bebeu, se passou a noite inteira paquerando-o, se estava com uma roupa minúscula. Na verdade, nada disso me interessa. Beber, andar sozinha de madrugada, usar um ‘pedaço de pano no lugar da saia’: nada disso nunca será desculpa para ser estuprada; NUNCA! A culpa não é dela. Continuo a não me interessar em saber o quanto ela bebeu e que roupa vestia. Quem praticou o crime foi ele, o que faz dele o culpado, não é ela; JAMAIS.

Talvez, a culpa também seja um pouco da sociedade, que continua a ensinar as meninas a como se comportarem para não serem estupradas; que tipo de roupa vestir e por onde andar. Esquecemos de ensinar os homens que o corpo das mulheres é só delas, que não significa sempre não, que uma mulher embriagada, nua ou sei lá como não é um convite para uma noite de sexo fácil. Não é sempre não! E nem venham me dizer que ela não se opôs: não estava em condições de oferecer qualquer resistência e isso, talvez, faça dele uma pessoa ainda pior, mas, em momento algum, coloca um tantinho que seja de culpa sobre ela.

Dizem que a revolução não será televisionada. Eu até acredito, mas jamais achei que um estupro seria. Não duvido de mais nada nessa vida. Acho mesmo que não quero viver em um mundo como esse. Estupro em rede nacional: todo mundo viu, as provas correm o mundo, ao alcance de qualquer um, mas o sujeito continua lá, livre, leve e solto, enquanto, do lado de cá, procuram argumentos para diminuir a culpa do rapaz, para provar que ela deixou. Eu não quero viver mais neste mundo, mas continuo aqui porque o que não quero mesmo é que este mundo continue assim.

 

Sobre Caê

Pretensamente revolucionário; tecnologicamente homem. Feminista por contingência; amigo por questão de sobrevivência.
7 Comments

Publicado por em 16/01/2012 em Sem categoria

 

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7 respostas para Eu não quero mais viver neste mundo

  1. João Vinicius

    16/01/2012 at 14:07

    Como assim, sério… estou ainda no estágio de perplexidade inicial do seu texto!

     
  2. will lopes

    17/01/2012 at 23:14

    Foda man!

     
  3. Bruna

    18/01/2012 at 10:23

    Ótimo texto.

    Também odeio BBB e nunca perdi meu tempo com esse programa nojento. Mas o que aconteceu lá dentro não é um problema do BBB, mas da sociedade e, portanto, ocorre em qualquer lugar – e muito.

    Sua conclusão foi perfeita, e me identifico plenamente: “Eu não quero viver mais neste mundo, mas continuo aqui porque o que não quero mesmo é que este mundo continue assim”.

    É por isso que também escrevo em meu blog Angústia Ética.

    Valeu!

     

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