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Arquivo mensal: janeiro 2011

Planos afundando, mas nada é tão ruim

Um dos meus planos pra 2011 era começar a tomar hormônios. Parece que isso não vai ser possível.

Eu não vou sair de casa esse ano, como estava planejando. Estava morando sozinho há 03 anos, mas por diversas circunstâncias, voltei à casa da minha família. Aqui, a tolerância com a minha transexualidade é ZERO e sei que não vou ter nenhum apoio e muitas brigas seriam iniciadas se eu fosse mais fundo na ideia da testosterona.

Algumas vezes é preciso encarar; em outras, recuar. Agora é a hora de recuar, infelizmente. Por mais que eu não queira ceder, a casa não é minha e eu preciso respeitar a opinião dos que me sustentam. Por agora, não tenho como fazer isso sozinho, é um fato que eu reconheço. Assim, só me resta aceitar o meu lugar porque também não dá pra enfiar tudo que a gente quer na goela das pessoas.

Mesmo com todos esses problemas, eu tenho conseguido me apresentar como homem em todos os espaços alheios a minha família. Tenho mantido a aparência que mais me agrada, mesmo quando sob duros protestos. Faço-me de surdo. O que me consola é que meu corpo tem sido um grande companheiro. Ele reagiu à minha simples ideia de ser homem e, sozinho, sem a ajuda de qualquer medicamento, começou a produzir algumas características masculinas.

Esta semana, pela primeira vez, fiz a barba. Estava com alguns pelos no queixo e leves costeletas se formando. O contato da gilete com a minha pele foi prazeroso. Não o prazer que eu sentia quando me mutilava, mas o prazer da auto-admiração. Meu tórax e abdômen também já estão cheios de pelos. Sei que ainda não estão como estariam se eu fosse um homem biológico, até porque meus seios estão sempre no caminho pra me lembrar disso, mas ainda assim…estão lá!

Tenho aprendido a não diminuir minhas conquistas, por menores que elas sejam. São conquistas, mesmo assim. Sinto-me mais homem a cada dia. Alguns dias um pouco menos, mas a consciência plena de qual é o objetivo final me ajuda a atravessar esses dias. E assim, nem tudo fica tão ruim quanto poderia se nós deixássemos ser.

 
 

Educação

O índice de evasão escolar entre travestis e transexuais é altíssimo. No momento, não tenho dados, mas não é nem um pouco difícil de acreditar. Se você for gordo, já é motivo pra ser alvo de piadas, imaginem sendo um transexual. É uma questão bem complexa, pois não é só ‘não ir à escola’, há diversos outros fatos que surgem daí: transexuais ficam ainda mais marginalizados, pois não tem acesso a empregos que requerem maior qualificação, muitos recorrem à prostituição, é mais difícil alcançar um padrão de vida digno e desejado.

Diversos estados já tem leis para que o nome social possa ser usado nas escolas. É um grande avanço, é mesmo ótimo, mas não é suficiente. Não adianta tanto assim usar o nome correto se todo mundo continua sabendo e fazendo chacota. Pra resolver isso, só educação, e já que estamos falando de escolas, é exatamente isso que se espera. Porém, nem sempre é o que se tem. Professores e diretores homo/transfóbicos há aos montes por aí. Se até o professor faz pouco caso da situação, imaginem as crianças ou os adolescentes, que muitas vezes agem apenas por imitação.

Nas escolas particulares, há a sensação de que o problema nunca vai chegar. São poucas as escolas que estão preparadas para lidar com a situação ou mesmo tenham profissionais capacitados pra isso. Mesmo os psicólogos e pedagogos dessas escolas, muito provavelmente, nunca lidaram com casos de transexualidade. Contudo, recentemente, tive uma boa surpresa.

Estou voltando a escola. Larguei a faculdade de Direito e vou tentar outra coisa. No meio disso tudo, tem o cursinho. Eu gostaria de ser tratado como um homem lá, mas pra fazer a matrícula precisaria dos meus documentos e, infelizmente, eles ainda não se adequam ao meu sexo psicológico. O que fazer, então? Resolvi abrir o jogo, ser o mais sincero e direto possível. Conversei com a cordenadora, expliquei o caso e disse que queria ser reconhecido como homem, usar banheiros masculinos e essas coisas. E tudo deu certo.

Ainda não sei como vai ficar a questão do nome. A escola nunca teve um transexual e não sabe como proceder exatamente nesse aspecto, mas confesso que isso nem me preocupa muito. Cursinho não tem chamada nem nada do tipo, então o meu nome será aquele que eu disser pras pessoas que é. Simples assim (pelo menos eu espero que seja). O único porém em tudo isso foi que me disseram ‘isso não é assunto pra sala de aula’. Eu ainda não sei bem qual interpretação dar pra essa frase. Seria no sentido de que ‘isso não vai ser mencionado porque realmente não diz respeito a ninguém’ ou no sentido de ‘não fale sobre isso porque não queremos nenhuma confusão’.

Ainda não sei qual foi o tom da ‘advertência’, mas espero poder percebê-lo conforme sinta qual é a postura da escola. Mas, por hora, tudo vai bem e está funcionando. Agora é esperar começarem as aulas e ver se não há problemas com os outros alunos, que, no fundo, costuma ser o maior problema.

 
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Publicado por em 21/01/2011 em Dia-a-dia

 

E se…?

A sexualidade humana é extremamente diversa: homens que gostam de homens, homens que gostam de mulheres, mulheres que gostam de mulheres e, no meio disso, vários outros espectros. Mas e se 2 transexuais ficarem juntos? O que acontece?

Bom, não vejo problema nenhum. Se forem 2 transexuais masculinos serão um casal de gays, 2 transexuais femininas, um casal de lésbicas, um de cada, um casal hetero. Pra mim, não há nada demais nisso, mas muita gente ainda vê algum estranhamento.

Eu, particularmente, sinto-me atraído por mulheres. Embora não descarte a possibilidade de ficar com um homem se qualquer dia tiver vontade de fazer isso, quando penso no meu futuro, sempre me vejo casado com uma mulher. Contudo, não teria problema nenhum se um dia esse mulher tivesse apresentado-se como homem. Aliás, seria hiporcrisia da minha parte, né?!

Eu espero ser aceito como homem e ter relacionamentos em que eu seja o homem. Quão bizarro seria se não fosse capaz de me relacionar com uma transexual por não aceitá-la como mulher?! Confesso, no entanto, que me causa certa estranheza sobre como se daria a relação sexual. Sem entrar em grande detalhes, provavelmente os dois gostariam de assumir papéis contrários aos que suas ‘ferramentas’ proporcionam. Mas espero que a capacidade de adaptação do ser humano se dê nessas relações também.

Eu ficaria muito feliz de ver um casal com 2 transexuais. Seria uma quebra de paradigmas, uma mostra de que, apesar de tudo, ainda há muita tolerância e compreensão no mundo.

 
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Publicado por em 07/01/2011 em Sexualidade

 

11 planos

Mais um ano começa, cheio de desejos e vontades, promessas que não serão cumpridas, vontades que não seram realizadas. Mas não precisamos ser assim tão pessimistas, talvez alguns sonhos tornem-se realidade, algumas metáforas, verdadeiras. Novos amigos, novos amores. Mais pressão, mais alívio. De tudo um pouco, em maiores ou menores doses.

E que venha o novo; que ele me descubra e se apaixone por mim. Minha vida está aberta para as descobertas, meu peito descortina-se para as paixões, meus braços abrem-se para os abraços.

Em 2011, eu poderia desejar 2011 coisas, mas seria uma lista muito trabalhosa e, provavelmente, um pouco cansativa, então resolvi desejar 11 coisas. Porém, não desejos soltos, passíveis de serem levados pelo vento, e sim coisas na qual eu realmente poderia trabalhar. Vamos lá:

-1- eu diria ‘perder peso’, mas quase todo mundo quer isso, e não sei quanto de esforço eu depositaria nesse objetivo, então vou deixar apenas como algo que gostaria de fazer, mas sem promessas, que costumam vir acompanhadas de pressão. na verdade, a primeira coisa é começar com a testosterona. vou magoar algumas pessoas com isso, tenho consciência, mas é tão importante pra mim que não estou disposto a não tentar;

-2- escrever, pelo menos, 3 artigos. minha vida acadêmica tem andando um tanto quanto bagunçada, e dedicar-me a uma séria pesquisa, sem parar no meio, é uma meta a que quero me dedicar verdadeiramente, com cérebro e coração;

-3- eu amo, e não amo pouco. pessoas, lugares, situações. em 2011, quero escrever mais cartas de amor. dedicá-las a pessoas especiais, a lugares em que nunca estive, a festas que irei lembrar pra sempre. meu amor não é só sobre pessoas. embora elas sejam grande parte dele, há tantas outras coisas para amar; e eu quero deixar marcado os amores que tive, ainda que não sejam humanos;

-4- sempre tive dificuldade em fazer amigos, sempre mesmo. eu me dou bem com as pessoas, mas manter a convivência e evitar que a distância impeça as relações tem sido um desafio. depois da faculdade, comecei a me relacionar muito melhor e fiz amigos, bons amigos, mas não sei quais vão durar. pretendo dedicar-me às amizades, fazer novas e cultivar as que já construí.

-5- uma coisa de que muito me orgulho é a minha posição política. sei o que quero para o mundo e tenho algumas vagas ideias sobre como conseguir. não há nada que eu tenha feito, de uma perspectiva política, de que me arrependa, mas quero continuar a ser um militante de tudo aquilo que acredito;

-6- tenho tido muitos problemas com a minha família desde que me descobri e me revelei como transexual. parar com o drama familiar é tudo que quero. de uma vez por todas, aceitem-me ou não, mas que parem as indiretas, as conversinhas e, ainda mais, a minha tristeza sobre tudo isso. estou pronto para aguentar as consequências da minha decisão.

-7- algo que eu preciso mesmo fazer é parar de pensar. pensar é bom, pensar é produzir, mas pensar demais só torna nossas angústias maiores, alimenta nossos medos e culmina com pessoas encarceradas em seus próprios temores e desejos;

-8- sou apaixonado por cinema: gosto do jeito que a câmera se movimenta, como a luz mostra ou esconde algum detalhe, como boas interpretações transformam personalidades medíocres em indivíduos fascinantes. assistir mais clássicos, aqueles filmes que todos deveriam ver pelo menos uma vez na vida pra terem o direito de dizer o quanto apreciam cinema;

-9- considero-me uma pessoa que lê bastante, pelo menos eu lia. depois que entrei na faculdade, parei de ler tudo que me dava prazer e passei a ler só o que me garantiria boas notas. esse ano, farei uma passagem diferente pela faculdade, então ler por puro prazer é uma das prioridades;

-10- ‘música é algo que te deixa mais perto de deus’. embora não entenda por completo minha relação com deus, sem saber, inclusive, se creio ou não (por isso escrevo sempre com ‘d’ minúsculo), música é mesmo algo divino. ouvirei mais música, muito mais. é inspirador, gratificante, traz bons e maus sentimentos, faz-nos sentir vivos!;

-11- por último, e acho que esse devia ser especial, eu desejo amar mais e, principalmente, ser amado de volta. eu poderia dizer que esse desejo não depende tanto assim de mim, mas, sim, em grande parte depende. das minhas ações, da minhas palavras, das minhas manifestações. quero fazer mais coisas que façam as pessoas desejarem me amar, e não por estar carente ou desesperado, simplesmente pelo fato de que ser amado é bom!

 

E fica aqui registrado, para que eu honre os compromissos que assumi comigo mesmo e, assim, quem sabe, tenha mais coragem pra ir até o fim!

 
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Publicado por em 03/01/2011 em Aleatórios

 
 
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