Ser transexual não é fácil. Em qualquer lugar do mundo ser diferente causa pavor. Queremos nos encaixar, ter aquele sentimento de pertencimento, não ser encarado ou apontado na rua. Em qualquer lugar do mundo é difícil ser transexual, em qualquer lugar é difícil descobrir-se e perceber que aquilo que você tem no meio das pernas não tem absolutamente nada a ver com aquilo que você, ou com aquilo que gostaria de ser.
Mas não sejamos hipócritas; é muito mais fácil ser assim quando se está em uma cidade grande, onde ninguém se conhece, onde cada um vive sua vida ‘livremente’ e pode minimamente manifestar suas vontades e desejos, ainda que hajam muitos desafios a encarar. É ainda mais fácil quando há dinheiro, quando não precisamos abaixar nossas cabeças para garantir que haverá comida na mesa, quando não precisamos nos negar com medo de não arrumar um emprego. Há dificuldade, e isso não negamos, mas há dificuldades diferentes. As variáveis são muitas.

O que fazer quando se está em uma cidade onde todos te conhecem, e reconhecem, como pertencente a um gênero. Não é fácil negar tudo isto e simplesmente tornar-se outro, exigir outro olhar, outra postura. É necessário muita força interior. Mas é preciso começar dentro de casa. Se teus pais não abraçam a mudança como exigir dos seus vizinhos que o façam? Se você é apresentado a todos como filha, realmente não há como esperar ser visto como homem.
E me consome ser tratado como mulher, simplesmente por não ser uma. É difícil ser transexual, é difícil ir contra todas as expectativas, transformar-se em alguém que nunca viram em você. O que mais me desespera é não saber até quando isso vai durar. Eu já sou um homem, mas quanto tempo mais você vai levar pra saber disso? Eu preciso gritar?
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